segunda-feira, 16 de abril de 2012

W x C em São Paulo - capítulo 1

Aventura parte 1: Rodoviária do Tietê.


A aventura começou logo na rodoviária, quando a zozó aqui achou que eles chegassem as 19:30 de quinta, e ficou lá esperando até as 22:30, porque supostamente tinha chovido, e supostamente o ônibus teria atrasado e supostamente a cidade estaria alagada... aquelas coisas que nós, cidadãos paulistanos já nos acostumamos.







Imaginanei o casal chegando em plena rodoviária do Tietê, depois da chuva, caos em São Paulo, sem falar nada de português, com duas bikes gigantes e a kristina pensando: "quem é essa Rachel? Onde está essa tal de São Paulo que ela me mostrou nas fotos?" Se fosse eu, já ia achar que tinha caído num desses golpes pela internet e já pegaria o próximo ônibus direto pra qualquer lugar longe daqui. 


A idéia era que eles chegassem as 19:30 pra gente poder colocar as bikes no metrô e vir da estação Vila Madalena pedalando até a minha casa, mas quando vi que eles não chegariam a tempo, escrevi um bilhete, que na verdade estava muito mais para uma carta, que dizia, entre outras coisas:


"CUIDADO! (acho que era exatamente assim, em letras garrafais). Não saiam da rodoviária. Peguem o taxi comum, esse que fica aí dentro mesmo. Vocês podem pagar no cartão de crédito adiantado, vai ser mais seguro. Talvez vcs tenham que pegar dois táxis, dependendo do tamanho de vocês. Fiquem sempre de olho nas bagagens. Etc. Etc. Etc." E todas aquelas recomendações que qualquer paulistano faria a qualquer estrangeiro. Entreguei a carta para a mulher do desembarque, explicando que chegaria um casal numa bicicleta sem falar português. "Numa bicicleta?"- ela perguntou, com os olhos arregalados. E eu: "Na verdade em duas".


E de repente, lá pelas 9 da manhã de sexta-feira, aparecem os dois malucos na minha rua... pedalando... ( sim, o ônibus deles chegaria as 7:30 da manhã, essa foi a confusão).


O melhor de tudo é que eles receberam o bilhete/carta/pergaminho, mas mesmo assim, vieram pedalando, "explorando" São Paulo.


Meu filho, que ouvia falar sobre uns tais australianos que viajavam pelo mundo de bicicleta tinha acordado as 6 da manhã de tanta ansiedade.
Gabriel, acordado desde as 6hs: "e ai, mãe, eles já chegaram?"
Quando ele viu as bicicletas com placa de energia solar, mil ferramentas, computador de bordo, e todo o resto da casa no bagageiro, enlouqueceu de vez. 


Sala de casa: estacionamento de bikes!
Aventura parte 2: Jacqui!






A Jacqui, uma outra australiana envolvida no projeto, chegou um pouco mais tarde. Descobri que ela estava no Brasil, mais precisamente no Rio de Janeiro, num barco que veio da África do Sul pra cá com uma família, tipo a família Schurmann: um casal e QUATRO filhos pequenos. Sim, idades: 6,5,4 e 10 meses. 


http://vimeo.com/39946099
Detalhe: Até a metade do almoço eu tinha entendido que a Jacqui era a mãe das crianças AND documentarista AND viajando num barco. E eu olhava e pensava: "Uau! quero ser ESSA mulher! Tão nova (já não daria, ela tem 22), já com 4 filhos, trabalhando, e deixando os quatro com o marido num barco pra ir trabalhar em outra cidade? Que mulher independente e bem resolvida! 


Na segunda metade eu descobri que ela só estava no barco a trabalho. Ufa... E saiu de um barco com 4 crianças, pra desembarcar em São Paulo, e pedalar mais de 100 km pra Santos sem ter pedalado 10 km na vida toda! 


E depois ainda descobri que o avião dela, tipo pinga pinga, saía de SP 1:30 da manhã, e ela voaria mais de 40 horas... 


Como diz sua tatuagem: "Sempre possibilidade".


Aventura parte 3 - As águas de abril.


Não era em março que chovia? Não tem aquela música famosa que fala sobre as águas de março fechando o verão?
No caso este ano, não seriam as águas de abril?
Depois do almoço, lá pelas 17 hs, saí com eles pra dar uma volta. Ia pro centro, mas quando vi a hora, decidi parar na Avenida Paulista. Santa decisão.
Quando entramos no metrô o céu estava azul! Até tinha cogitado fazer um pedal com eles no minhocão a noite, etc. 




Descemos na Estação Brigadeiro pra caminharmos até a Praça do Ciclista, passando pelo MASP, Conjunto Nacional, etc. Todos os planos literalmente por água abaixo. Sabe quando vc passa semanas planejando algo e acaba parando num boteco que você nunca tinha entrado na vida? Passamos algumas horas lá nos abrigando dAquela chuva que caiu em São Paulo...
Onde foi parar meu foco???
Então... Mas quem está na chuva é pra se molhar, não é mesmo?




Bora passear então!





segunda-feira, 9 de abril de 2012

A magrinha e a magrela





Essa é a Micheline. Ela é a primeira mulher que trabalha de refrigeirista para a Porto Seguro. De bike.


Sabe aquele técnico que a gente tem direito a chamar quando fazemos o seguro do carro e quebra o microondas, a geladeira, ou dá algum problema no encanamento? 


Então, quando a gente aciona o técnico, pode ser que venha a técnica: Micheline.


Ah! digo "a gente", mas é modo de dizer. 


Eu não tenho mais seguro. Nem pago mais IPVA. Nem gasto com gasolina nem troco o óleo. Nem me preocupo onde vou estacionar, nem quanto vai custar.


( material filmado em alta resolução)


Não sou mais prisioneira do trânsito da minha cidade.


Sou como a Micheline: gosto mais do caminho que faço do que do lugar que chego.







segunda-feira, 26 de março de 2012

World Bicycle Relief e World by Cycle



WORLD BICYCLE RELIEF


Logo depois de descobrir os encantos da bicicleta, descobri uma organização americana que já arrecadou mais de 100.000 bicicletas para as regiões mais pobres da África: a World Bicycle Relief. Me apaixonei pelo projeto e me inscrevi como voluntária.


O PODER DAS BICICLETAS


Na África, a bicicleta é muito mais que um meio de locomoção: este objeto tão simples e sustentável é essencial para a transformação de muitas vidas. 
Este filme mostra exatamente o que pode representar uma bicicleta nessas comunidades.



Mais do que encurtar distâncias, ela promove independência.

A bicicleta é doada aos adolescentes para poderem chegar as escolas, mas fora dos horários de aula, é utilizada pelas famílias para comprar comida, transportar água e todas as demais necessidades.

Cada bicicleta doada é a vida de uma familia transformada. Cada bicicleta doada é uma criança frequentando a escola. Cada bicicleta doada é um sonho realizado, uma possibilidade de futuro.

A primeira menina a receber uma bicicleta do projeto, Mary Lewanika, quer estudar medicina, e isso não teria sido possível se ela não tivesse condições de frequentar a escola.


Foto fornecida pelo "World Bicycle Relief"


Imagem fornecida pelo "World Bicycle Relief".
Pra falar de seu poder transformador e da diferença da bicicleta em cidades da África ou em outras cidades do mundo, Frederick k. Day, fundador da World Bicycle Relief compara: "em Nova York, por exemplo ela pode melhorar a vida de todos, mas lá ela salva vidas."

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=ubDVpMHhFgk#!

Um artigo recente da BBC, publicado no dia 14/03, cita a utilidade e importância do trabalho da World Bicycle Relief:


" Com uma bicicleta, você pode ir buscar água fresca, você pode obter assistência médica, você pode ir para o emprego ou conseguir um emprego melhor. Não significa que ela te fornece água fresca, mas te dá acesso a ela e tudo se torna acessível." http://www.bbc.co.uk/news/world-africa-17115923


World by Cycle é um projeto de circunavegação em que os exploradores Nic e Kristina vão dar a volta ao mundo pedalando e, entre outros objetivos, vão divulgar e arrecadar fundos para o World Bicycle Relief.





Eles estarão aqui no Brasil de 03/04 a 21/04, passando por Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro, parando nas comunidades locais, ao longo do caminho, descobrindo a sustentabilidade e diversidade ambiental.O material coletado durante a viagem será transformado em 7 filmes de 20 minutos.


Para ajudá-los, vamos vender estes adesivos a R$5,00 em algumas lojas e restaurantes aqui em São Paulo.


Também dá pra contribuir fazendo uma doação de qualquer valor via internet. É só mandar um email pra gente, que nós enviamos o link.

rachelwbr@globo.com 
denizewbr@globo.com 

O World x Cycle e o World Bicycle Relief também estão no facebook:







 

quinta-feira, 22 de março de 2012

A bicicleta na sociedade do automóvel.
















"Aqui vc não pode entrar. Por que? Ah! Porque vc é pobre!
Comecei a ser barrada no bar, barrada na festa, barrada no baile, barrada nos lugares teoricamente chiques porque eu era... CICLISTA. Então comecei a entender que ciclista não tinha nem aceitação social como consumidor. Quer dizer, aí caiu a ficha do real problema social brasileiro. O problema das bicicletas na rua é cultural. cultural "my a..."! Sabe o que está por trás disso? Está por trás disso a primeira exclusão social, por que eu não tenho um carro, eu não sou uma pessoa q tenho status social pra consumir. Eu não sou uma pessoa que tenho status pra existir pra não ser atropelado". Renata Falzoni



Complementando o que escrevi a semana passada sobre "Como ser uma bicicleta na cidade feita pra carros" http://ra-deriva.blogspot.com.br/2012/03/se-vc-nao-quer-continuar-olhando-para.html, assisti um depoimento em que Renata Falzoni descreve brilhantemente essa diferença.




E também fala sobre a economia real de energia, transformação, felicidade, a relação com a cidade, qualidade do ar, enfim, tudo o que a gente descobre rapidamente quando começa a pedalar. O discurso é muito bom, vale a pena assistir.


Em artigo publicado por Cynara Menezes, na Carta Capital, ela compara a sociedade brasileira com Hitler.


"Se fascistas e nazistas tinham lá sua admiração pelo ciclismo, o mesmo não se pode dizer da atrasada direita brasileira. Desde a manifestação que ocorreu em São Paulo na sexta-feira 2 de março em protesto pela morte de uma ciclista, atropelada por um ônibus na Av. Paulista, as agressões na internet não param. Pasme: não contra os carros ou o trânsito desumano da cidade, mas contra os que desejam fazer diferente e se deslocar em duas rodas. “Bikerdistas”, “fascibikers”, “talibikers”: assim tem sido chamados os ciclistas que tentam alertar a população de São Paulo para uma forma melhor de vida que não a ditadura do automóvel.
Dentro de seus carros, a direita balofa bufa contra os ciclistas que protestam, porque “param” o trânsito e “atrapalham” seu deslocamento egoísta e insano."


http://www.cartacapital.com.br/sociedade/piores-que-hitler/

Acabo de ler o depoimento de uma menina que apanhou na Avenida Paulista, por uma mulher que dizia que quem pedalava lá, deveria morrer. Atenção: ela apanhou por estar andando de bicicleta, novamente no espaço permitido, apenas por estar compartilhando o espaço. Apanhou dessa sociedade que não consegue enxergar além do universo que existe fora do seu carro. Ela não estava protestando contra nada. Apenas optou em se deslocar de bicicleta.

Como disse Sakamoto, no seu blog:

"Quem protesta de verdade, tentando mudar as coisas, é taxado de vagabundo, louco, imbecil, retrógrado, egoísta. Por quê? Porque seres civilizados nunca parariam o trânsito. Manifestação bonita é aquela asséptica que nasce e morre na internet e não ganha as ruas. Para estes manifestantes de butique, reclamar tem limites. A partir daí, vira arruaça. Ou pior, subversão.


Coletei exemplos disso ao longo do tempo. Alguns já postei aqui. Como a conversa de duas senhoras em um avião:
- Você viu que morreu uma daquelas sem-terra na rodovia dia desses. Atropelada.
- Também, estava andando no meio da estrada, fazendo protesto. Atrapalhando o trânsito."
Falando em manifestantes de butique, há um mês mais ou menos li uma publicação em que as pessoas de um bairro próximo ao meu manifestaram o desejo de manter um parque aberto até mais tarde, pra podermos usufruir do pouco espaço público que temos na cidade. O parque fica perto da minha casa, então logo entrei na discussão e me dispus a engrossar a massa. Foi marcada uma reunião, as 16 hs de uma quarta-feira. Eu reagendei outro compromisso para as 18hs, reorganizei a vida do meu filho, que nesse dia estaria em casa as 18hs, e fui.


Cheguei lá as 15:50, mandei uma mensagem pra pessoa que tinha marcado a reunião. Nada. Dei uma volta no parque. Voltei lá pra administração. 4:15. Nada. Mandei outra mensagem. Nada. Ninguém. Já que estava lá, entrei pra falar com o administrador do parque. Obviamente na segunda frase já agradeci e quis sair de lá o mais rápido possível. Mas o fato é que me dei conta de que estava lá, envergonhada da classe que eu supostamente representava: essa burguesia, que quer tudo na mão, mas não quer se mobilizar por nada. Esses manifestantes de butique. Que não se deslocam um quarteirão, pra ir até um PARQUE (não estou falando de ir a uma passeata na Av. Paulista "atrapalhar o trânsito", estou falando de ir ao parque que gerou a discussão sobre mantê-lo aberto por mais tempo). Essas pessoas se envergonhariam de ter alguém como eu as representando, alguém que não quer ser escrava do carro, alguém que sonha com uma cidade mais humana, alguém que provavelmente esta na frente "atrapalhando"o caminho deles.


Me pergunto também o que estavam fazendo os motoristas dentro dos seus carros no dia da bicicletada que "atrapalhou o trânsito"?  Se conseguirmos mais segurança pra pedalar, muita gente vai ter coragem, e quanto mais bicicletas nas ruas, menos carros, consequentemente menos trânsito. Ninguém ainda se deu conta disso?


Um artigo, este publicado em novembro de 2011 por uma brasileira que mora em Berlim, na época da construção da ciclofaixa em Moema, fala sobre a manifestação CONTRA uma ciclovia, e que isso só poderia estar acontecendo no Brasil, que em nenhum país do mundo se contestava sobre a possibilidade de uma vida mais saudável.


http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2011/11/09/bicicletas-intolerancia-no-brasil-claro-415617.asp



Sociedade brasileira: ATENÇÃO.
Quantas pessoas vão precisar morrer pra essa mentalidade continuar imperando? 
Como disse Renata Falzoni, a gente está anos-luz atrás. E daqui pra frente, nós teremos duas opções: PEDALAR OU PEDALAR.


Precisamos acordar, ir em busca do tempo perdido, e o que realmente vai fazer a diferença pra mudar, é a mudança do nosso comportamento. Se é difícil trocar o conforto do carro por outro meio de transporte, pelo menos lute para que outras pessoas possam fazer. Ou pelo menos aceite essa opção.
Afinal quanto mais gente podendo pedalar com segurança, quanto mais gente podendo usar o transporte público, a cidade vai melhorar também pra você, que quer continuar dirigindo!


E mais: muitos ciclistas já foram motoristas. Se a troca foi feita e nós saímos nas ruas batalhando pelo direito de pedalar e não voltamos a ter um carro, por que será que fazemos isso? Será que o motivo é realmente "atrapalhar a vida de vcs e o trânsito da cidade?" 





terça-feira, 20 de março de 2012

Um dia na vida de um ciclista!

13/03/2012, terça-feira


-  23km percorridos
- "Apenas" 5 finas educativas ( sendo 2 de motoristas de táxi)
-  4 conversas com os motoristas, 1,5m bla bla bla bla bla (com o último eu desisti de conversar) 
-  Um motorista de ônibus MUITO GENTIL, na avenida Pedroso de Moraes
-  Um motorista de ônibus me mostrando que meu lugar não era ali, na rua Mourato Coelho
-  13 carros, uma moto e um ônibus atravessando os semáforos COMPLETAMENTE VERMELHOS, sendo 4 desses veículos no cruzamento da Rebouças com a Joaquim Antunes 
- 4 quarteirões percorridos na calçada. 
-  NENHUM pedestre em perigo, aliás um trânsito caótico e nenhum pedestre na calçada.
- uma buzinadinha de um ciclista simpático

- uma conversa com uma ciclista no farol
- duas novas  fotos no instagram, enquanto esperava uma reunião, fazendo hora no parque...








MOTORISTA DE ÔNIBUS GENTIL

Vendo minha dificuldade em cruzar uma grande avenida, e percebendo que prejudicou a minha visão quando parou no ponto, o motorista de ônibus ainda esperou um tempo depois de pegar os passageiros até que os carros parassem de passar e me deu um sinal para que eu pudesse atravessar em segurança. Nao sei se ando muito sensível, mas juro que fiquei emocionada...

COISAS QUE SO ACONTECEM SÓ PORQUE VOCE ESTÁ DE BICICLETA. SE FOSSE UM CARRO, SERIA DIFERENTE.
A mulher e a amiga  num corsa, paradas em fila dupla numa rua tranquila em Pinheiros, sem pisca- alerta, pediam informações a um guarda. Eu vinha atrás e fiz a ultrapassagem pela esquerda. Logo depois estiquei a mão avisando que voltaria para o meu lugar, a direita, na sua frente. Durante minha ultrapassagem ela acelerou ainda olhando pro lado, falando com a pessoa que dava informações, e eu, tentando entrar na sua frente, fazendo sinal para ocupar o meu lugar, olhando pra ver se ela me via, pois obviamente a rua era dela, uma mulher que possuia um carro. 



OBVIAMENTE parou no próximo farol ( 99% das vezes isso acontece, fato). Eu avisei que ela estava distraída, que ela deveria prestar mais atenção quando saísse, porque na sua frente poderia ter um cachorro, uma bicicleta, até um ser humano... Ela disse: "você é que deveria ter esperado eu terminar de conversar atrás de mim". Sim, ela é a dona da rua, parada em fila dupla, sem pisca-alerta ligado, e eu, que tenho uma bicicleta, deveria ficar esperando atrás do carro dela até que ela resolvesse o que fazer... 


Nem respondi. Não vale a pena.

Geralmente os motoristas acatam bem quando batemos na janela e avisamos, com um sorriso e educação: "olha, o senhor sabia que por lei, um carro deve ultrapassar um ciclista a 1,5m de distância?". Eles pedem desculpas e depois buzinam em sinal de solidariedade.

MOTORISTAS DE TAXI

O motorista de táxi não teve paciencia de esperar atrás de mim para entrar na rua, então me fechou e virou na minha frente. OBVIAMENTE parou no trânsito, a menos de um quarteirão da cena.
Eu: O senhor acelerou tanto pra ficar parado? Pra que correr tanto?
Ele: Eu preciso correr!
Eu: Pra que?
Ele: Pra pegar passageiro.
Eu: Então, mas o senhor correu, correu, e continua aqui... parado no farol? A
s vezes esperar 10 segundos não vai fazer diferença pro senhor, mas pra mim pode fazer. E se o senhor me derrubar, não vai ser bom nem pra mim nem pro senhor. E outra: lembre-se que eu posso ser sua próxima cliente, porque quando chove, todos os que estão a sua volta saem de carro, e eu, com certeza vou precisar do senhor!
Fica a dica!


O fato é que é sempre algo tão sem propósito, são atos tão impensados, tão inconsequentes... Uma pessoa parar de acelerar pra você conseguir se posicionar no seu lugar, um motorista esperar 10 SEGUNDOS pra entrar na avenida, isso não vai fazer diferença pra eles ( eles vão parar no próximo farol, fato)  mas se eles encostarem no seu guidão, podem fazer um estrago em você. 


Este  vídeo feito pela Cicloliga, bem didático, explica porque ultrapassar o ciclista a 1,5m de distância.






Por isso a frase: "Sua pressa vale uma vida"?


Será que um dia alguém vai entender o verdadeiro sentido dessa frase, sem precisar tirar a vida de alguém?









segunda-feira, 12 de março de 2012

Como ser uma bicicleta na cidade feita para carros.












“Se vc não quer continuar olhando para a bicicleta como um esporte radical e perigoso: eu sobrevivi hoje, talvez eu sobreviva amanhã, é preciso de uma infraestrutura boa e segura”. Jan Gehl , arquiteto, numa entrevista para a jornalista Natalia Garcia. 


Usar a  bicicleta como meio de transporte em algumas cidades brasileiras como São Paulo é  como fazer um teste de sobrevivência todos os dias. Segundo dados do CET ( Companhia de Engenharia de Tráfego) aqui morre um ciclista por semana. Se formos analisar a quantidade de ciclistas que circulam pelas ruas pela quantidade de carros, isso é um número bastante significativo.

A cidade planejada para carros não aceita bem outro tipo de locomoção.
A classe média brasileira foi educada para ter um automóvel. Carro aqui é sinal de status. Os apartamentos aqui são vendidos pelo número de garagens e pelo tamanho do muro que protege (falsamente) os moradores.

A sociedade brasileira, mais precisamente a elite paulistana não consegue abrir os vidros dos seus carros pra enxergarem a pequena, mas crescente revolução que está se iniciando tardiamente na minha opinião. Ficam todos dentro de suas pequenas prisões, parados em congestionamentos de até 200km e apenas contestam o fato, individualmente. Mesmo assim, continuam repetindo a mesma rotina todos os dias.




A VELOCIDADE DA MUDANÇA.








Em 1996 foi aprovado o projeto de construção de uma ciclovia em uma grande avenida paulistana: a Av. Faria Lima. Dois anos depois foram instalados pontos de ônibus no meio dela. Em 2012, depois de 16 anos a cidade vai ganhar mais 2 km de ciclovia nesta avenida.  16 anos pra 2km seria mais um atraso do que uma evolução na minha opinião. 

Em outubro do ano passado uma ciclofaixa tímida e mal feita foi pintada em míseros seis quarteirões de um bairro nobre de São Paulo. Os moradores se revoltaram porque não teriam vagas pra estacionarem seus carros.



A jornalista Mônica Waldvogel deu um depoimento no seu programa, onde debochava de um amigo que tentava convencer um grupo de que a bicicleta seria o meio de transporte do futuro...

Quando a estação Butantã foi inaugurada na linha amarela, conversei com uma pessoa que morava a dois quarteirões de lá e trabalhava na Av. Paulista, perguntando se ela não estava feliz com essa facilidade, afinal da estação Butantã até a Av. Paulista são apenas 6 minutos de metrô. Fiquei surpresa quando notei que ela nem tinha cogitado essa hipótese. Continuava indo trabalhar de carro todos os dias, gastando sua horinha no trânsito e pagando estacionamento em plena Av. Paulista, como se aquela linha de metrô não tivesse nada a ver com a vida dela.

O que podemos perceber é que a velocidade da construção de ciclovias  e espaços exclusivos, assim como a conscientização da classe média é inversamente proporcional a velocidade dos carros.

Ou seja, as pessoas continuam pensando em continuar nos seus carros, e comprar outro carro pra driblar o rodízio, mesmo que isso custe três horas do dia de cada um.

Três horas que poderiam ser gastas de qualquer outra forma, mesmo que fossem pedalando. Mesmo que fossem em beneficio próprio.

Como diria Cazuza: “Enquanto houver burguesia, não vai haver poesia”...











CIDADANIA x OBSTÁCULOS.

O fato é que o trânsito cada vez fica pior e nunca os motoristas se reuniram pra fazer um protesto. Talvez por que para melhorá-lo, cada um sabe que terá que abandonar o carro em casa e optar por um transporte público. Talvez porque no carro eles tenham a falsa sensação de proteção que a couraça lhes coloca. Mas acho que o melhor motivo é porque dentro do carro, o motorista não sabe o verdadeiro sentido da palavra CIDADANIA, palavra que é rapidamente descoberta por quem sai de seu carro e passa a usar a bicicleta.

Digo isso por experiencia própria. Eu precisei sair do carro pra descobrir esses valores. Valores que não tem a ver com dinheiro ou classe social.

A bicicleta não é apenas um meio de transporte. É muito mais do que isso: é  o início de um processo de transformação do ser humano. Mas continua sendo vista aqui no Brasil como um obstáculo entre os carros e outros transportes motorizados. Ninguém consegue entender que o ciclista poderia ser outro motorista e estar ali ocupando um espaço maior e poluindo, ou ocupando mais um banco no transporte público. Enxergam como um obstáculo que está atrapalhando seu caminho. E pronto.

Uma grande inversão de valores se instala por aqui. Enquanto alguns ciclistas tentam se proteger usando as calçadas (ato proibido pelo Código de Trânsito Brasileiro ), pedestres pedem desculpas a eles por estarem atrapalhando seus caminhos e quando ciclistas tentam ocupar seu lugar na pista da direita, compartilhando-a com os carros, são espremidos por estes, que os mandam pra calçada.

Tudo errado. É o ser humano pedindo desculpas para uma máquina. A escala está invertida.  A cidade precisa ser usada pelas pessoas e não pelas máquinas. Somos motoristas, pedestres e ciclistas, mas igualmente seres humanos.
E em São Paulo, infelizmente o ser humano não é prioridade.

CIDADES MAIS HUMANAS. MAIS AMOR, MENOS MOTOR.

Semana passada 5 ciclistas morreram no Brasil.
Uma morte foi na avenida mais importante da cidade de São Paulo. A ciclista discutia com um motorista de ônibus quando foi atropelada por outro, que estava na sua faixa, na velocidade permitida e não tinha nada a ver com a história.

A bióloga Juliana Dias, de 33 anos, foi vítima da priorização da máquina . Da omissão de políticos e órgãos públicos. Da falta de humanização da nossa cidade. Da falta de aceitação da sociedade da bicicleta como um meio de transporte. Da inversão de valores da nossa sociedade.

Em 2009 ocorreu outra morte, a apenas um quarteirão do atropelamento. Márcia Prado, cicloativista, também foi  outra vítima da desumanização da nossa cidade.
Na avenida onde morreram, a velocidade máxima permitida é de 60km/h. Uma velocidade alta perto da quantidade de pedestres e ciclistas que circulam por lá todos os dias.
No dia 06/03 houve a Bicicletada Nacional. Ciclistas se uniram para pedir mais ciclovias, mais segurança no trânsito, e que as cidades sejam mais humanas. "Mais amor, menos motor".









Eu estava lá. Eu deitei na avenida mais importante da cidade entre centenas de cidadãos pedindo um mundo melhor.




Em 2009 foi Márcia, semana passada foi Juliana, amanhã pode ser eu, afinal eu optei pela minha liberdade, mas ela pode custar caro numa cidade onde as palavras “ velocidade e a intolerância” valem mais que  “liberdade e cidadania”.



domingo, 11 de março de 2012

Luis e Barnabé


Estes são Luis e Barnabé. Luis é brasileiro, Barnabé argentino. Tocam Chico Buarque na Av. Paulista. Se conhecem há muito pouco tempo, mas parece que a parceria está dando certo.


Essa semana ouvi uma história interessante sobre uma experiência feita pelo Washington Post. O melhor violinista do mundo, Joshua Bell tocava um violino de mais de $3,000,000.00 numa estação de metrô e ninguém reparou na sua música.


Os ingressos para seu concerto chegam a custar 100 euros.


Ele tocava de graça, e ninguém parou pra ouvir... Se o jornal queria comprovar que as pessoas não prestam atenção no que acontece na sua frente, bingo! Acertou em cheio!